A Melodia da Paciência Divina
Quantas vezes, ao final de uma missa, já não nos pegamos fazendo um balanço do nosso serviço? De um lado, a alegria do dever cumprido, de uma harmonia que uniu a assembleia em oração. Do outro, a lembrança daquela nota que escapou, daquele atrito com um irmão de ministério, ou daquela distração que nos roubou a atenção do Mistério no altar. Vivemos constantemente neste campo onde o trigo e o joio crescem juntos, não apenas na Igreja, mas em nosso próprio coração.
Neste 16º Domingo do Tempo Comum, o Senhor nos presenteia com uma das mais consoladoras e realistas páginas do Evangelho. Ele não nos apresenta um ideal inatingível de perfeição, mas a realidade do Reino que cresce em meio às nossas fraquezas, regado por uma paciência divina que nos ultrapassa e conforta. É um convite a olharmos nosso ministério, e a nós mesmos, com a mesma misericórdia do Dono da Messe.
O Evangelho da Espera e do Crescimento
Evangelho (Mt 13,24-43)
Naquele tempo, 24Jesus contou outra parábola à multidão: “O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. 25Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora. 26Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio. 27Os empregados foram procurar o dono e lhe disseram: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?’ 28O dono respondeu: ‘Foi algum inimigo que fez isso’. Os empregados lhe perguntaram: ‘Queres que vamos arrancar o joio?’ 29O dono respondeu: ‘Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. 30Deixai crescer um e outro até a colheita! E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e amarrai-o em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!'” ... [Ele] contou-lhes outra parábola: “O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda...” ... E outra ainda: “O Reino dos Céus é como o fermento...” ... Então Jesus deixou as multidões e foi para casa... [e] respondeu: “Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem. 38O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao maligno... 43Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos ouça”.
O Joio que Cresce em Nós e ao Nosso Redor
Jesus é direto: o campo é o mundo, mas podemos, por um instante, enxergar nesse campo o nosso pequeno mundo, o nosso ministério de música. Nele, o Senhor semeou a boa semente: nosso chamado, nossos dons, o desejo sincero de servir, a alegria de cantar os louvores de Deus. Mas, como diz a parábola, “enquanto todos dormiam”, o inimigo veio e semeou o joio. Esse sono pode ser nosso descuido espiritual, nossa falta de oração, nosso cansaço.
O Campo do Nosso Coração
O primeiro lugar onde encontramos trigo e joio misturados é dentro de nós. O trigo é a nossa voz que se eleva para Deus; o joio é a vaidade que busca o elogio dos homens. O trigo é a dedicação em ensaiar para servir bem à liturgia; o joio é a impaciência com o irmão que tem mais dificuldade. O trigo é a emoção sincera ao cantar um Salmo; o joio é o perfeccionismo que nos faz esquecer que estamos rezando.
A tentação dos “empregados” – a nossa tentação – é a de querer “arrancar o joio” imediatamente, com uma violência que pode nos ferir. Queremos ser perfeitos agora, e nos frustramos com nossa própria miséria. A resposta do Senhor é um bálsamo: “Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo”. Deus, em sua sabedoria, sabe que o processo de santificação é lento. Ele não desiste de nós por causa do joio. Ele nos dá tempo, nos rega com Sua graça, esperando pacientemente a colheita. Nossa parte é cuidar para que o trigo cresça mais forte. É por isso que a preparação espiritual do músico católico é mais importante que a própria técnica.
O Campo do Nosso Ministério
O mesmo se aplica à vida em comunidade. O ministério de música é um campo fértil para as sementes do Reino: a fraternidade, o serviço mútuo, a beleza que eleva as almas. Mas também é onde o joio da divisão, da fofoca, da competição e do descompromisso pode aparecer. Quantas vezes não nos sentimos impelidos a “limpar o campo”, a apontar o dedo, a criar cisões?
A Palavra de hoje nos chama a uma sabedoria maior. Não se trata de ser conivente com o erro, mas de entender que o julgamento final pertence a Deus. A nós, cabe a missão de ser bom trigo, de influenciar pelo exemplo, de promover a unidade e de rezar por todos. Muitas vezes, o irmão que hoje nos parece “joio” está apenas passando por uma dificuldade, e a paciência da comunidade pode ser o solo fértil para que a boa semente nele germine. O verdadeiro líder de ministério age com a paciência do Dono do campo, como um bom pastor que cuida do rebanho, mesmo das ovelhas mais frágeis.
A Força Oculta da Pequena Semente
Se a parábola do joio nos ensina a paciência com a imperfeição, as parábolas da semente de mostarda e do fermento nos ensinam a ter esperança na pequenez. Nosso serviço pode parecer insignificante. Talvez você cante em uma pequena capela, com poucos recursos. Talvez sua voz não seja a mais potente, ou seu violão não seja o mais novo. Talvez você sinta que seu esforço não produz grandes frutos visíveis.
Jesus nos diz que o Reino é como a menor das sementes, que se torna uma árvore frondosa. Cada canto entoado com fé, cada acorde feito com o coração, cada ensaio oferecido como oração é uma dessas sementes. Não vemos seu crescimento imediato, mas, no tempo de Deus, ela pode se tornar refúgio e consolo para uma alma que precisa. Nosso canto é como o fermento: não é o pão, mas ajuda toda a massa a crescer. A música está a serviço do Mistério; ela não é o centro, mas uma força que, misturada à oração da Igreja, ajuda a fermentar os corações e a elevá-los a Deus.
Cantar na Espera da Colheita
Irmãos, que este Evangelho renove nossa esperança e nossa forma de servir. Que ele nos livre da ansiedade do perfeccionismo e do peso do julgamento, seja sobre nós mesmos ou sobre os outros. Somos um campo onde a graça e a fraqueza convivem, e o Senhor sabe disso. Ele não nos pede para sermos um campo sem joio, mas para sermos um trigo que, apesar do joio, cresce vigoroso em direção ao sol, que é o Seu amor.
Neste domingo, ao subir ao presbitério, lembre-se: você é boa semente de Deus. Ofereça a Ele tanto o seu trigo quanto o seu joio. Cante com a confiança de quem sabe que o Dono do campo é paciente e misericordioso. E acredite que a pequena semente de seu serviço, unida ao grande Sacrifício do Altar, já está se transformando na grande árvore do Reino dos Céus. Que nossa melodia seja, hoje e sempre, um ato de confiança na colheita que virá.




