Queridos irmãos que dedicam seus talentos ao serviço da Igreja através da música, a cada semana somos chamados a afinar não apenas nossos instrumentos e vozes, mas sobretudo o coração. Somos instrumentos vivos nas mãos de Deus, e nossa melodia se torna oração, proclamação e consolo para a assembleia.
No entanto, o caminho do serviço nem sempre é fácil. Há desafios, cansaço, e, muitas vezes, o medo pode tentar nos roubar a alegria e a paz no ministério. É justamente nesse cenário que o Evangelho de nossa reflexão nos fala de forma tão direta e profunda.
No 12º Domingo do Tempo Comum, a Palavra de Deus nos convidou a uma reflexão corajosa sobre a fé e a confiança na Providência Divina. Jesus, ao enviar seus apóstolos, não os ilude com promessas de um caminho fácil, mas lhes oferece a certeza da presença e do cuidado do Pai. Para nós, músicos católicos, essa mensagem ressoa com uma força especial, convidando-nos a superar o medo e a proclamar, com a vida e com o canto, a verdade de Cristo.
Naquele tempo, disse Jesus a seus apóstolos: 26“Não tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado e nada há de escondido que não seja conhecido. 27O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados! 28Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno! 29Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. 30Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. 31Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais. 32Portanto, todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos céus. 33Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus”. (Mt 10,26-33)
O Contexto da Coragem
O trecho do Evangelho que meditamos hoje faz parte do chamado “Discurso Missionário” de Jesus, registrado por São Mateus. Jesus está prestes a enviar seus doze apóstolos em missão, e sabe que o caminho não será pavimentado de glórias e aplausos. Haverá perseguição e rejeição. É um discurso de advertência e, ao mesmo tempo, de um profundo encorajamento. Jesus não disfarça as dificuldades, mas oferece a maior das seguranças: a de que Deus está no controle, e que o valor de cada um de Seus filhos supera qualquer ameaça terrena. Para um músico, que está sempre exposto ao olhar dos outros, essa mensagem é um bálsamo e um chamado à coerência.
Não Tenhais Medo dos Homens

Quantas vezes o medo nos assola no ministério? Medo de errar uma nota, de desafinar, de não agradar ao padre, aos fiéis ou até mesmo aos outros membros do ministério. Medo da crítica, do julgamento, da comparação com outros grupos ou com o que parece ser “o padrão”. Esse Evangelho nos convida a olhar para além do olhar humano. Jesus nos diz que “nada há de encoberto que não seja revelado”. Isso significa que, no fim, a verdade do nosso serviço, a intenção do nosso coração, será conhecida por Aquele que tudo vê.
A Crítica Construtiva e a Destrutiva: Aprender a discernir é fundamental. Nem toda crítica é para nos abater. Algumas nos ajudam a crescer, a aprimorar nossa música a serviço do mistério. Mas o medo paralisante, aquele que nos faz esconder os dons ou evitar novos desafios, esse não vem de Deus. Nosso temor maior deve ser a Deus, e não ao que os homens podem fazer ou dizer.
Servir a Deus, não aos Homens: É fácil cair na armadilha de buscar a aprovação humana. Mas São Paulo nos recorda: “Se agradasse ainda aos homens, não seria servo de Cristo” (Gl 1,10). Nosso serviço é uma oferta a Deus, e a Ele unicamente devemos nossa dedicação.
Proclamai sobre os Telhados
“O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados!” Essa é uma ordem para o anúncio destemido. No contexto do músico católico, nossa música é, em si mesma, uma proclamação. Não cantamos apenas melodias; cantamos a Palavra de Deus, a doutrina da Igreja, a história da salvação. Nossa voz e nossos instrumentos são como os “telhados” de onde ecoa a Boa Nova.
A Clareza da Mensagem: Para proclamar, é preciso clareza. Isso envolve uma boa dicção no canto católico, arranjos que não ofusquem a letra, e um repertório que esteja em sintonia com a liturgia e com a fé da Igreja. Não podemos sussurrar verdades que precisam ser bradadas.
A Música como Evangelização: Cada canto é uma oportunidade de tocar corações, de levar uma mensagem de esperança, de doutrinar na fé. É um privilégio e uma responsabilidade que exige coragem para ir contra as modas passageiras e manter a fidelidade ao que é sagrado.
Vós Valeis Mais do que Muitos Pardais: Confiança na Divina Providência
Essa é talvez a parte mais terna e consoladora do Evangelho. Jesus nos lembra do cuidado de Deus até com os pequenos pardais e, em seguida, afirma: “Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais.”
No ministério de música, passamos por muitas provações: falta de recursos, desânimo de membros, dificuldades em ensaios, a sensação de que nosso esforço não é reconhecido. Mas Deus Cuida dos Detalhes: se Deus cuida de um pardal que cai, Ele cuida do nosso ministério, dos nossos dons e das nossas necessidades. É preciso cultivar uma profunda confiança na Providência. Quando as dificuldades surgem, o desânimo é uma tentação. Mas lembremo-nos de que o coração do músico é um sacrário de oração e serviço, e de lá brota a fé que move montanhas.
Nosso serviço em geral é gratuito e exige sacrifícios pessoais. Não esperamos recompensas terrenas, mas a certeza de que Deus vê nosso esforço e nos valoriza infinitamente mais do que imaginamos. Confiar na Providência é saber que Ele suprirá o que for necessário para a continuidade da missão.
Declarar-se a Meu Favor: O Testemunho do Músico
“Portanto, todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos céus. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus.” Este versículo é um convite e um alerta. Nosso serviço musical na Igreja não é um mero passatempo ou uma performance; é uma forma de testemunho, uma declaração pública da nossa fé em Jesus Cristo.
A Coerência entre Vida e Canto: Declarar-se a favor de Jesus não é apenas cantar belas canções ou tocar instrumentos com maestria. É viver o que se canta. É ter uma vida de oração, de sacramentos e de caridade. Se a nossa vida pessoal nega o que a nossa música proclama, nosso testemunho se esvazia.
O Canto como Confissão de Fé: Cada vez que entoamos um cântico litúrgico, estamos confessando nossa fé. Seja no Glória, no Santo, nas antífonas, ou nos cantos de comunhão. É um ato de amor e de coragem, pois exige que nos posicionemos como filhos e filhas de Deus, mesmo em um mundo que muitas vezes tenta silenciar a voz da fé.
Servir com um Coração Destemido
Meus irmãos, que este Evangelho ressoe em nossos corações e nos encha de uma santa audácia. Que o medo das imperfeições, das críticas ou das dificuldades não nos roube a alegria de servir a Deus com nossos dons. Lembremos-nos das palavras de Jesus: “Não tenhais medo!” Nosso valor é imenso aos olhos do Pai, e Ele nos guarda em cada passo. Que possamos, então, proclamar a Sua Palavra sobre os telhados, através da melodia que brota de corações cheios de fé e confiança. Que cada nota, cada acorde, cada verso cantado seja uma declaração sincera do nosso amor por Jesus Cristo, nosso Senhor. Ele se declarará a nosso favor diante do Pai.

Antes da próxima Missa, pare um instante, olhe para as leituras e para o tempo litúrgico, e pergunte em oração: “Senhor, como o meu canto pode servir melhor ao Teu Mistério hoje?”. A resposta certamente virá como uma melodia suave do Espírito Santo.




