O Chamado que Interrompe a Rotina
Quantas vezes nos sentamos para o ensaio ou nos posicionamos para iniciar a Santa Missa com uma lista de preocupações? A afinação do violão, a harmonia vocal que ainda não encaixou, aquela melodia do salmo que não decorei direito, a entrada no tempo certo, a letra que teima em fugir da memória. Buscamos uma perfeição que, embora nobre em sua intenção de glorificar a Deus, pode se tornar um fardo pesado.
Podemos, sem perceber, nos tornar fiscais da liturgia, juízes de nós mesmos e dos outros, medindo o valor do nosso serviço pela ausência de erros.
Neste 10º Domingo do Tempo Comum, a Palavra de Deus vem como um bálsamo e um convite à conversão do nosso olhar. O Evangelho não nos encontra no auge da nossa santidade ou no pico da nossa performance, mas exatamente onde estamos, como encontrou Mateus em sua coletoria de impostos:
Naquele tempo, partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: “Segue-me!” Ele se levantou e seguiu a Jesus. Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus, vieram muitos cobradores de impostos e pecadores e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos. Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos discípulos: “Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?” Jesus ouviu a pergunta e respondeu: “Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas, sim, os doentes. Aprendei, pois, o que significa: ‘Quero misericórdia e não sacrifício’. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores”.
Mt 9,9-13
Jesus Te Vê: O Chamado na Nossa “Coletoria”
Mateus era um publicano, um cobrador de impostos a serviço do Império Romano. Para os judeus de seu tempo, ele era um pecador público, um traidor, alguém impuro. Ele não estava no Templo, nem rezando na sinagoga. Estava trabalhando, imerso em uma rotina que o afastava de Deus aos olhos da sociedade. E foi ali, naquele lugar improvável, que o olhar de Cristo o alcançou com um chamado simples e transformador: “Segue-me!”.
Pensemos em nossa própria vida. Quantas vezes nos sentimos indignos de servir no altar por causa de nossas falhas, de nossa rotina corrida, de nossas preocupações? O Evangelho de hoje nos garante: é exatamente aí que Jesus nos encontra. Ele não espera que estejamos prontos, perfeitos ou purificados para nos chamar. Ele nos chama para que, seguindo-O, sejamos curados e transformados. O chamado ao ministério não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio para os que se reconhecem necessitados.
A preparação espiritual do músico católico não consiste em apresentar a Deus uma folha de serviços impecável, mas em apresentar um coração aberto que, como Mateus, é capaz de se levantar e deixar tudo para seguir o Mestre.
O Ministério é a Mesa de Cristo, não o Tribunal dos Fariseus
A cena seguinte é ainda mais provocadora. Jesus está à mesa com pecadores e cobradores de impostos. É uma imagem de comunhão, de acolhida, de misericórdia em ação. Os fariseus, por outro lado, observam de longe, criticam, julgam. Eles representam a mentalidade que exclui, que exige pureza antes de oferecer comunhão.
Infelizmente, essa mentalidade farisaica pode se infiltrar em nossos ministérios. Ela aparece quando criamos “panelinhas” que dificultam a entrada de novos membros. Manifesta-se no olhar de reprovação quando um irmão erra um acorde ou uma nota. Sussurra em nosso coração quando julgamos a participação da assembleia ou a homilia do sacerdote. Quando isso acontece, transformamos nosso serviço, que deveria ser a mesa de Cristo, em um tribunal.
O Senhor nos convida a fazer do nosso ministério um lugar de cura. Um espaço onde as pessoas, com seus talentos e suas limitações, se sintam acolhidas. Onde o novo integrante que mal sabe os acordes básicos é recebido com a mesma alegria que o músico experiente. Onde o erro de um é sustentado pela força do outro, e não apontado como uma falha no espetáculo. Como sabemos, o papel do coordenador como um bom pastor, é zelar por esse ambiente de comunhão e cuidado mútuo, mas a vigilância é de todo mundo.
A Afinação do Coração: “Quero Misericórdia e Não Sacrifício”
Esta frase de Jesus, citando o profeta Oseias, é o coração do Evangelho e deveria ser a clave de sol da partitura de todo músico católico. O “sacrifício” que os fariseus ofereciam era o cumprimento frio da lei, uma exterioridade vazia de amor. O nosso “sacrifício” pode ser a busca obsessiva pela perfeição técnica, pela harmonia mais complexa, pelo arranjo mais impressionante.
Não há nada de errado em buscar a excelência para Deus. Ao contrário, devemos oferecer a Ele o nosso melhor! Mas a excelência técnica, desprovida de um coração misericordioso, torna-se um ruído aos ouvidos de Deus. De que adianta um canto afinado se o nosso coração está desafinado com o irmão ao lado? De que serve uma execução instrumental perfeita se somos impacientes e rudes no ensaio?
Deus prefere a melodia simples de um coração humilde e cheio de amor ao virtuosismo de um coração orgulhoso e julgador. O nosso serviço musical só tem sentido quando se torna um canal da misericórdia de Deus. A música na liturgia encontra seu verdadeiro propósito quando serve para curar, acolher e levar as pessoas ao encontro do Médico Divino.
Como Viver a Misericórdia em Nosso Serviço?
Antes de servir: Comece sua preparação com a oração. Apresente ao Senhor não só o repertório, mas suas fraquezas e as de seus irmãos de ministério. Peça um coração de servo, não de artista.
No ensaio: Crie um ambiente de fraternidade. Tenha paciência com quem tem mais dificuldade. Celebre os progressos do grupo, mais do que as conquistas individuais. O ensaio deve ser um laboratório de comunhão.
Durante a Missa: Se alguém errar, sustente-o. Não faça gestos de reprovação. Seu olhar fraterno pode ser mais curador do que a nota certa. Lembre-se: vocês são um corpo, servindo ao Corpo de Cristo.
Com a assembleia: Cante para a assembleia, não apesar dela. Olhe para os rostos. Muitos ali são os “doentes” de que fala Jesus. Seu canto pode ser o remédio que o Médico envia.
O chamado de Mateus é o nosso chamado. Um chamado para deixar a coletoria de nossas autossuficiências, de nossos medos e de nossos julgamentos. É um convite para nos sentarmos à mesa com Aquele que não veio para os perfeitos, mas para os que precisam de cura. Que nosso serviço, nossos acordes e nossas vozes sejam sempre um eco dessa verdade consoladora.
Antes da próxima Missa, ao afinar seu instrumento, silencie por um instante e pergunte em oração: “Senhor, como o meu canto pode ser um instrumento da Tua misericórdia hoje?”. A resposta, com certeza, será a harmonia mais bela que você poderá oferecer.




